Para termos idéia do que o pecado significa basta olharmos para a Vítima inocente que é Jesus, para a Sua morte cruel e Seus imensos sofrimentos, aceitos por amor ao Pai e que nos devolveu a amizade com Deus.
Nossa atitude ao recordarmos dos nossos pecados, já cometidos e os que poderemos vir a cometer, não é se martirizar, lhe considerando um estúpido até, considerando os pecados cometidos uma espécie de lapsos inexplicáveis. Esta visão a respeito dos nossos pecados é falsa.Pecar é próprio de cada um de nós, visto que somos criaturas decaídas e, por isso, constantemente inclinadas a deixar-nos levar pela tentação, mas nos é necessário compreender retamente a doutrina do pecado original.
Com relação a nossa vontade, sentimo-nos mais fortes do que na realidade somos, por isso, antes de percebermos bem onde estamos, já estragamos tudo, cometendo algum pecado humilhante.
Quando confessamos nossos pecados, devemos sim, sentir dor de coração, envergonhar-nos deles, odiá-los, mas não surpreender-nos de tê-los cometidos. Se irritar e aborrecer por ter caído, é uma atitude que nenhum bem fará. É uma sutil vaidade a que nos faz ter essas reações, o progresso espiritual não é uma corrida de obstáculos na qual devo ir conquistando recordes, e no primeiro tropeço ao não conseguir a marca prevista, logo me sinto humilhado, quando na verdade o que Deus quer é que eu seja humilde, o que é bem diferente.
Exemplo: um homem que se põe a correr atrás de seu chapéu que lhe fora arrancado pelo vento , costuma sentir-se humilhado principalmente se as pessoas que estão a volta começam a rir. Está cheio de orgulho ferido. Só quem não se sente assim é que é humilde.
Sem a graça de Deus não podemos fazer nada de bom.
Se aproveitarmos as nossas próprias faltas, enfrentando-as como se deve, sem desanimar, iremos nos tornando cada vez mais humildes.
Mas, não caiamos no erro de pensar que porque somos uma criatura caída, não podemos evitar o pecado. Todos somos responsáveis pelos nossos atos. Nem sempre é possível ter a certeza que uma falta em concreto é um pecado ou uma simples imperfeição; nem de que um pecado que cometemos é venial ou mortal. Em última instância este juízo cabe a DEUS. Infelizmente não pensamos com freqüência assim. Sabemos que pecamos, mortal ou venial-mente. E é aqui que precisamos ter em conta a nossa condição de criaturas caídas : ela não desculpa as nossas faltas, apesar de explicá-las.
Devemos, ser pacientes com os nossos pecados como o seríamos com os dos outros; alimentemos a esperança de sermos curados, e rezemos com constância para isso. Devemos considerar as nossas faltas com humildade, tal como as nossas virtudes.
È extremamente importante sermos sinceros conosco próprios.
Num retiro ou num estudo da espiritualidade devemos aprofundar na nossa alma e ver-nos tal como somos, na medida do possível, já que nunca chegaremos a conhecer-nos totalmente.
E, em concreto, há uma situação que devemos evitar: a de dramatizar a nossa situação, emaranhando-nos em longas considerações teóricas sobre como somos malvados e quanto detestamos os nossos pecados, o que não costuma ser verdade.
Há os santos que sentiam sincera dor até das faltas mais leves. Isso é muito bom no caso deles, pois desenvolveram uma grande sensibilidade de consciência que nós não temos. Se nós, tentarmos imitá-los nisto, faremos puro teatro, as lamentações não passarão de uma espécie de explosão histérica, e não se apóiam num sentimento sincero, num exame de consciência autêntico.
A um homem que se confessava o maior dos pecadores, seu Santo Anjo da Guarda lhe disse uma frase que convém recordarmos sempre: "Vaidade, meu amigo, não o és de maneira nenhuma", pois ao descrever assim, a si mesmo, isso não é verdade objetivamente, porque há no mundo com certeza pessoas muito piores do que ele, mas é-o subjetivamente, porque talvez não exista no mundo outro tão consciente da realidade do pecado como ele.
Não é esse o nosso caso quando dizemos a nós próprios que somos uns grandes pecadores. Talvez não o façamos por vaidade; mas é muito possível que estejamos querendo provocar em nós um estado emocional que não corresponde às nossas convicções reais.
Quando contemplamos nossos pecados fria e serenamente, o que vemos não é a sua grandeza, mas a sua pequenez, de tão ruins, tão mesquinhos eles são! Vemos que construímos o enorme recife do purgatório, pouco a pouco, com pedacinhos insignificantes. Um insulto aqui, uma crítica pouco caridosa acolá, uma falta de caridade, mentirinhas para não ficarmos mal... Se os nossos pecados são insignificantes, não é por sermos bons cristãos, mas naturezas insignificantes. As nossas disposições opõem-se umas às outras.
Fizemos algo de suficientemente bom ou suficientemente mau para ganhar o Céu ou ir para o inferno?
Como encontrar na repetição monótona das nossas pequenas faltas, matéria suficiente para um arrependimento sério? O melhor é recordar as nossas faltas passadas, não tanto em si mesmas, mas procurando a tendência que manifestam. Se não cometestes nenhum grande mal na tua vida passada, nada há quase na tua vida que te leve a ficar vermelho quando te confessa. Mas, quanto mal não terias feito se tivesses tido a possibilidade de fazê-lo? Que estragos terias cometido na vida se teu temperamento fosse outro? Pensa nisso, e verifica se o simples fato de imaginá-lo não te leva a pôr-te de joelhos.
Isso quanto as nossas faltas e pecados já perdoados. DEUS queira que permaneçam mortos e enterrados. Mas, que dizer dos que podemos cometer no futuro, apesar dos nossos bons propósitos?
Cometemos grande erro quando julgamos aparafusarmos bem a nossa vontade na firme resolução momentânea " do não voltar a pecar", isso não irá garantir-nos o êxito no dia de amanhã na hora da tentação.
Quando falamos que a nossa natureza é decaída, não queremos dizer que é uma natureza má. O pecado original viciou e debilitou a nossa natureza, mas ela continua a ser uma coisa boa, bela, amada por DEUS. DEUS não destruiu a obra das Suas mãos por causa da nossa revolta. A natureza humana continua a ser uma coisa boa, porém danificada. Os instintos, as paixões, as emoções, os afetos, são bons em si mesmos, mas estão desequilibrados; falta uma proporção harmônica entre os diversos elementos que nos compõem; a nossa vida não está ordenada pela razão, e por isso nela reina a desordem.
"Os nossos próprios pecados" Ronald Knox
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