O mistério deste burro e deste boi é uma das imagens mais belas da antiga iconografia cristã (arte de representar um simbolismo religioso por meio de figuras).
O burro e o boi são elementos presentes em cada representação do presépio; motivos tão obrigatórios que, quando a cena por razões de espaço ou de sobriedade, se reduz aos elementos essenciais, o par de animais não é tirado.
A presença contínua dos dois animais nasce de finalidades simbólicas.
Corresponde a uma interpretação patrística de duas profecias existentes na Bíblia: a de Isaias 1,3 “conhece o boi o seu patrão e o burro o estábulo de seu dono” e a de Habacuc 3,2, “em meio a dois animais te manifestarás”.
Os animais são ali um símbolo do reconhecimento do Messias, um símbolo cheio de profundo significado. O boi, segundo a melhor interpretação patrística, é o povo de Israel, que levou o jugo da lei. Enquanto que o burro, animal de carga, é o povo gentio, carregado de pecados e de idolatrias. Destes dois povos nasceu a Igreja que reconhece o Jesus como seu Senhor.
O burro e o boi são dois componentes originais da Igreja: a igreja dos gentios (nós, que não somos judeus) e a igreja dos circuncidados (os judeus convertidos ao cristianismo), para adotar uma terminologia do apostolo Paulo. Conforme Gálatas 2,8 ss, não são apenas dados folclóricos, são esplêndidos símbolos eclesiais, ou seja, da Igreja.
(Texto elaborado por Fernando S. dos Santos, com base no Livro: Arte Sacra-O Espaço Sagrado Hoje, do Cláudio Pastro)