A VIDA DA SAGRADA FAMÍLIA

 

As casas dos primeiros fiéis, externamente iguais as outras, converteram-se em lares cristãos. Os pais transmitiam a fé aos seus filhos, e estes aos deles, e assim a família se converteu num pilar fundamental da consolidação da fé e dos costumes cristãos. Repletos de caridade, os lares cristãos eram recantos de paz no meio das incompreensões externas, das calúnias, da perseguição. Os ensinamentos dos pais brotavam com naturalidade ao ritmo da vida, e assim a família cumpriu a sua função educadora.

Perante a onde de materialismo e de sensualidade que afoga os homens, o Senhor “quer que das nossas almas saia outra onda que afogue com a sua pureza a podridão de todo o materialismo e neutralize a corrupção que inundou o orbe: É para isso que vem- e para mais- os filhos de Deus” para levar Cristo a tantos que convivem conosco, para que Deus não seja um estranho na sociedade. Transformaremos verdadeiramente o mundo na medida em que o ensinamento começar com o testemunho da nossa própria vida... Então crerão nas nossas obras mais do que em qualquer discurso e sentir-se-ão atraídos pelo ideal de vida que as nossas ações lhes revelam. O exemplo prepara a terra em que a palavra frutificará... Sem cairmos em atitudes grotescas, impróprias ao mundo, o que significa seguir verdadeiramente o Senhor na tarefa cotidiana, tal como fizeram, os primeiros cristãos. Os outros devem ver Cristo no nosso comportamento, diário, simples e sereno.

Devemos contemplar a Sagrada Família- Jesus, Maria e José como modelo e protótipo de amor e o espírito de serviço para todas as famílias. Maria morou depois dos desposórios com José, na casa da Sagrada Família: o lar que José instalou com tanto carinho para receber Maria. Essa casa foi em primeiro lugar a Casa de Maria, “pois toda casa é, antes de tudo, santuário da mãe. E ela configura-o de modo especial com a sua maternidade “(João Paulo II).

A dedicação ao cuidado do lar deve ocupar sempre um lugar central na vida da mulher, pois é ali que, através de uma infinidade de detalhes, exerce principalmente a sua maternidade, a missão mais excelsa que recebeu do Senhor. Entre José e Maria havia carinho santo, espírito de serviço e compreensão. Assim é a família de Jesus: Sagrada, Santa, exemplar, modelo de virtudes humanas, disposta a cumprir com exatidão a vontade de DEUS.

A exemplaridade e a alegria dos esposos cristãos devem preceder o apostolado com os filhos. Essa alegria no meio das dificuldades normais de qualquer família; nasce de uma vida santa, da correspondência a vocação matrimonial. E os filhos realizam um bem muito grato a Deus quando se esforçam por empregar todos os meios ao seu alcance para colaborar com o ambiente próprio de uma família cristã, em que todos vivem as virtudes humanas: cordialidade jovial, sobriedade, amor ao trabalho, respeito mútuo. Quando elevado a ordem sobrenatural, todo amor humano se engrandece e se fortalece porque, pelo sacramento cristão, o Amor divino penetra no amor humano, ampliando-o e santificando-o. É Deus quem une o homem e a mulher com um vínculo sagrado do matrimônio; e por isso o que Deus uniu o homem não o separe. Justamente porque Deus une marido e mulher com vínculos divinos, o que eram dois corpos e dois corações torna-se uma só carne, um só corpo e um mesmo coração, à semelhança da união de Cristo com a Sua Igreja. (Ef. 5,22).

O matrimônio não é apenas uma instituição social, não é apenas um estado jurídico, civil e canônico; é também uma nova vida, abnegada, transbordante de amor santificante para os cônjuges e para todos os que compõem a família. Nos seus esforços por recordar o valor e a santidade do matrimônio, o cristão não deve deixar-se impressionar pelas dificuldades e mesmo pelas chacotas que possam surgir no seu ambiente, da mesma forma que o Senhor não se importou com o clima existente em Israel, contrário a Sua doutrina. Jesus Cristo, contrariando o ambiente da época a respeito do matrimônio, devolve-lhe toda a sua dignidade original e eleva-o à ordem sobrenatural ao instituí-lo como um Sacramento chamado a santificar os cônjuges na vida familiar. Nós também devemos seguir Seu exemplo nestes tempos em que os ataques contra a família parecem recrudescer, devemos preservar com fortaleza o patrimônio recebido dos nossos ascendentes, e procurar enriquecê-los com a prática das virtudes cristãs e com a nossa fé. Devemos fazer da nossa casa : um lar cristão, onde todos procurem viver os valores eternos e deixem-se ensinar pela Sabedoria Eterna, o lar cristão de uma família que recuperou sua dignidade cristã. Sabemos que só depois da morte de Herodes é que José se atreveu a levar Maria e o Menino para o lar de Nazaré. As paredes desta casa testemunharam o amor entranhado dos membros da Sagrada Família; cheia de luz e de amor, limpa, alegre, essa casa é o modelo de todos os lares cristãos. “A Sagrada Família é a imagem perfeita de um lar! Ali se vive com simplicidade de costumes e calor humano; em constante harmonia de sentimentos; sem desordem, com respeito mútuo; com amor sincero, sem fingimentos, plenamente operativo pela perseverança no cumprimento do dever, que tanto atraí os que a contemplam” (Papa Leão XIII). É para ali que devemos olhar se queremos reproduzir nas nossas famílias o exemplo de Jesus, Maria e José.

O primeiro dever dos pais é amarem os filhos com um amor verdadeiro: interno, generoso, ordenado, que não olha para as suas qualidades físicas, intelectuais ou morais, e que sabe querer-lhes com os seus defeitos. Devem amá-los por serem seus filhos e também serem filhos de Deus. Os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e devem expor a eles que são administradores de um enorme tesouro de Deus e que, por serem cristãos, não são uma família como outra qualquer, antes formam uma família em que Cristo está presente e que por isso tem umas características inteiramente novas. Assim esta viva realidade levará os pais a serem exemplares em todas as ocasiões (nas conversas, à mesa, no modo de cumprirem os deveres profissionais, pela sua sobriedade, pela ordem e asseio, pela delicadeza de maneiras...). E os filhos encontrarão neles o caminho que conduz a Deus. Dar bom exemplo aos filhos é uma grave responsabilidade para os pais. Sabendo reconhecer diante deles os próprios defeitos, ser-lhes-á mais fácil guiá-los e corrigi-los (Eclo 30,1-2; Ef. 6,4). Os pais dão testemunho desta responsabilidade em primeiro lugar pela criação de um lar onde a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado são a regra. O lar é um, lugar apropriado para a educação das virtudes. Esta requer a aprendizagem da abnegação, de um reto juízo, do domínio de si, condições de toda liberdade verdadeira. Os pais ensinarão os filhos a subordinar “as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais” (Catecismo da Igreja Católica, 2223).

No lar de Nazaré tudo transcorreu na mais completa normalidade, sem acontecimentos de grande revelo externo. O Senhor não nos pede coisas chamativas. Busca-nos, porém na nossa família, em mil pequenos pormenores de entrega: sorrir para aquele que está mais cansado, antecipar-se a serviço dos outros, vencer nosso mau-humor, festejar em família os aniversários e festas... O nosso lar deve ser já um céu aqui na terra.

A quase totalidade dos dias em que Maria passou na terra decorreram de forma muito parecida a de milhões de outras mulheres ocupadas em cuidar da família, em educar os filhos, em levar a cabo as tarefas do lar. Maria santifica as coisas mais pequenas, aquelas que muitos consideram como intranscendentes e sem valor : o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção com as pessoas queridas, as conversas e visitas por motivos de parentesco ou de amizade. Bendita normalidade, que pode estar repassada de tanto amor de Deus!

É principalmente pela oração que a mãe cristã santifica sua família. Sua oração completa o que a sua palavra e os seus exemplos esboçaram. Deus nada recusa à oração constante de uma mãe, visto que na oração colocou a sua força e vitória. Assim é que a oração lhe deve ser o alimento habitual da alma. José e Maria tinham o costume incessante de sempre deixar o primeiro lugar para a oração. O cansaço, pressa, preocupações, trabalhos antes de desanimá-los eram as coisas que mais ânimo lhes dava. A oração era sempre a rainha de todo o agir deles, era a luz, a esperança, a felicidade... Era a consolação nas horas tristes e canto de louvor nas horas felizes. Era sempre a alegria incessante de suas almas. A oração familiar- escreve Papa João Paulo II – tem características próprias. É uma oração feita em comum, marido e mulher juntos, pais e filhos juntos. A oração em comum comunica uma particular fortaleza à toda a família. Nunca devemos nos desamparar da proteção da oração, diante dela as armas do maligno, como a maldade do mundo, a sensualidade da carne e o orgulho do espírito fogem. Nunca devemos nos desamparar desta arma, a qual abrem os céus para deixar jorrar as bênçãos e graças sobre a família, sobre nós. “Uma das mais excelentes e eficazes orações em comum, que a família cristã é convidada a rezar é o Santo Rosário” (Paulo VI). O Terço em família é uma fonte de bens para todos, pois atraí a misericórdia de Deus sobre o lar. Diz João Paulo II : “Tanto a recitação do Angelus como a do Terço devem ser para todo o cristão e muito mais para as famílias cristãs como que um oásis espiritual no decorrer do dia, para ganhar em coragem e confiança”.

A mãe lembre-se da vida de Santa Mônica, que foi mãe irrepreensível que com seu exemplo, lágrimas e orações, obteve a ressurreição espiritual de seu filho... E, se o esposo que Deus lhe deu é antes um pecador a converter que um cristão a edificar, que se dedique com paciência e confiança a esta conversão, também a exemplo de Santa Mônica cuja fidelidade a Deus, dia-a-dia, obteve também a conversão do seu marido Patrício, que era pagão, e esta conversão exerceu uma influência decisiva em todos aqueles que de alguma maneira pertenciam ao núcleo familiar.

Se, por infelicidade, os pais estão longe da fé, o Senhor dará à filha ou filho, a graça necessária para realizar com eles um apostolado cheio de afeto e respeito, que consiste, ordinariamente, em rezar por eles, em dar-lhes o apoio de uma conduta filial alegre, exemplar, cheia de carinho, juntamente com o empenho em procurar ocasiões de aproximá-los de pessoas que lhes possam falar de Deus com mais autoridade do que os filhos, porque os filhos não podem arvorar-se por iniciativa própria em mestres de seus pais.

Os pais não podem esquecer que os seus filhos são antes de tudo filhos de Deus, e que devem ensiná-los a comportarem-se como tais. Isto se cumpriu de maneira singularíssima no caso da Sagrada Família. Jesus aprendeu de seus pais o significado das coisas que O rodeavam. A Sagrada Família devia recitar com devoção as orações tradicionais que se rezavam em todos os lares israelitas, mas naquela casa tudo o que se referia particularmente a Deus tinha um sentido e conteúdo novos. Com que prontidão, fervor e recolhimento Jesus devia repartir os versículos da Sagrada Escritura que as crianças hebraicas tinham que aprender! (Salmo 55,18; Dan 6,11; Salmo 119). Devia recitar muitas vezes essas orações aprendidas dos lábios de seus pais. Os pais que sabem rezar com seus filhos encontram mais facilmente o caminho que os leva ao coração desses filhos. De Maria, Jesus também aprende maneiras de falar, ditos populares cheios de sabedoria, que mais tarde, utilizaria na Sua pregação. De José que era o chefe da família; como pai legal, a quem cabia sustentar Jesus e Maria com seu trabalho, Jesus aprendeu o seu ofício, o meio de ganhar a vida.

A par de uma vida exemplar, que é um ensinamento contínuo, os pais devem ensinar os seus filhos modos práticos de tratar com Deus, especialmente nos primeiros anos de infância. Logo que começam a balbuciar as primeiras palavras: orações vocais simples, que se transmitem de geração em geração, fórmulas breves, claramente compreensíveis, capazes de pôr-lhes no coração os primeiros germes do que chegará a ser uma piedade sólida: jaculatórias, palavras de carinho à Jesus, à Maria e à José; invocações ao Santo Anjo da Guarda. Pouco a pouco aprendem a saudar piedosamente os quadros e imagens de Nosso Senhor, da Virgem, de São José, dos Anjos e Santos. A leitura de alguns versículos do Evangelho... E com os mais velhos a recitação do terço, alguma breve oração pelas pessoas falecidas, pelas intenções da família, pelo Papa. A abençoar e agradecer os alimentos, a rezar antes de se deitarem.

Os pais devem encarregar-se de fazer com que os filhos cumpram cada dia este dever. Há de habituá-los, sobretudo, a prática da visita freqüente ao Santíssimo Sacramento, levando-os consigo à Igreja desde os mais tenros anos; a assistência a Missa do domingo, todos juntos.

Se os pais souberem praticá-los, contribuirão para que se respire sempre no lar um clima amável, de família cristã, onde os filhos, desde pequenos, aprenderão com naturalidade a tratar com Deus e com a Sua Santíssima Mãe. E os filhos nunca se esquecem das ajudas que receberam quando crianças dos seus pais: para que rezassem, para que recorressem a Virgem em todas as situações, as formas práticas de nos dirigir-nos a Jesus Sacramentado. É sem dúvida a melhor herança que nós recebemos e que eles receberão.

Não é necessário que as práticas de piedade em família sejam numerosas, mas seria pouco natural que não se estabelecesse nenhuma num lar em que todos, ou quase todos, professam ser cristãos.

A família é escola de virtudes e o lugar habitual onde devemos encontrar a Deus. Nazaré é a escola em que se começa a compreender a vida de Jesus: A Escola do Evangelho.

Deus quer que os Seus filhos nasçam, vivam e se formem num lar, que deve ser imitação do lar de Nazaré: Um lugar onde Deus caiba plenamente e possa estar no centro do amor entre todos. Um lugar onde todos procurem viver os Valores Eternos... A Sabedoria de Deus. Podemos aprender a ler e escrever e até conquistar um diploma na Universidade, mas se não procurarmos viver os Valores Eternos de nada valerá tanto conhecimento amontoado na terra, porque duram pouco e são inseguros e frágeis.

Jesus, com uma sabedoria infinita, nos diz: “Entesourai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem os corroem, e onde os ladrões não arrombam e os roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, ali estará o teu coração (Mateus 6,19-21). O nosso coração deve estar posto no Senhor, nos bens e Valores Esternos... e Ele quer, de maneira ordenada, de modo particular, que coloquemos o nosso coração nos membros da família humana ou sobrenatural, pois são aqueles que devemos levar a Deus em primeiro lugar, são a primeira realidade que devemos santificar.

O lar onde Jesus nasceu foi a primeira realidade humana que santificou com Sua presença. Amém! 

 Baseado em Maria Valtorta e Falar com Deus

Solange


COMUNHÃO DOS SANTOS