A MISSÃO DA COMUNIDADE - Transmitir a verdade de Cristo

 

a) Os Apóstolos cumprem a missão recebida de Cristo

Qual o meio que os Apóstolos usaram a fim de transmitir a Verdade de Cristo?

O Espírito Santo desceu sobre eles como um vento impetuoso e em línguas de fogo; e eis que "começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem" (Atos 2,1-4).

Dos primeiros anos da Igreja primitiva não existe nenhum escrito apostólico. De 13 (Os Doze + o substituto de Judas) Apóstolos, 7 não escreveram palavra alguma, mas todos foram peregrinando pelo mundo até os confins da terra, a fim de dar testemunho de Cristo e de seu Reino. São Paulo leva o facho luminoso da fé pelas cidades conhecidas do Império Romano. E só no ano 51 escreve aos Tessalonicenses as suas duas primeiras breves epístolas de conforto e animação para a fé que plantara por pregação oral.

b) Os Apóstolos consideram a tradição oral fonte primária da revelação

Na segunda epístola, o Apóstolo dá como regra:

 "Assim, pois, irmãos; estejam firmes e conservai as Tradições que aprendestes, seja por Palavra, seja por carta nossa" (2Tessalonicenses 2,15).

E na sua última epístola, que escreveu a Timóteo 1 ano antes de seu martírio, recomenda a seu discípulo predileto conservar com fidelidade e exatidão, como verdade revelada, mais que tudo seu testemunho oral:

"Guarda a forma das sãs palavras que de mim Ouviste na fé e no amor em Jesus Cristo. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo, que habita em nós" [2Timóteo 1,13].

Manda o Apóstolo, além disso, que essa tradição oral seja transmitida avante por homens que mereçam confiança:

"O que Ouviste de mim por muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir a outros" (2Timóteo 2,2).

Na Epístola aos Romanos, pergunta:

"Como crerão naquele de quem não Ouviram? E como Ouvirão sem se Pregar? E como Pregarão se não forem enviados" [Romanos 10,14].

E mais abaixo responde:

"A fé vem da Audição e a audição da Palavra de Cristo. Mas pergunto: acaso eles não Ouviram? Por certo que sim. Por toda a terra correu a sua voz e até os confins do mundo as suas palavras" [Romanos 10,17].

É a voz e a palavra de Cristo que, por intermédio dos Apóstolos, correm por toda a terra. Quem ouve e crê é salvo; e quem não ouve e não crê, é condenado. É o Mesmo meio estabelecido por Cristo Nosso Senhor no Evangelho.

Na Epístola aos Gálatas, declara o caráter definitivo desta sua pregação que, portanto, deve ser fonte de fé. Ele excomunga pelo anátema todo aquele que venha pregar outro Evangelho (Gálatas 1,6-10). Logo depois, faz explicitamente a apologia do seu apostolado (1,11-24), pelo qual transmitira oralmente a Tradição Apostólica. Com o apostolado e com a identidade do Evangelho pregado pelos outros Apóstolos (2,1-21), comprova a autoridade de sua pregação. É o mesmo processo seguido nas duas Epístolas aos Coríntios. Ele se baseia na Autoridade Apostólica e divina com que transmitiu a doutrina pela tradição oral, sem aludir a escritos e documentos. Se estes fossem a única fonte de fé, ele deveria estribar-se exclusivamente neles. Nota-se, pelo contrário, que ele só resume a doutrina que já lhes tinha ensinado oralmente, assim quanto à Eucaristia (1Coríntios 11,17-34) e à ressurreição:

"Eu vos lembro, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual, também recebestes e no qual estais firmes, e pelo qual sois salvos, se, todavia o conservais como vo-lo Preguei, salvo se crestes em vão. Porque eu vos entreguei primeiramente o que havia recebido..." (1Coríntios 15,1-3).

Na 2ª Epístola aos Tessalonicenses, repetidas vezes alude à doutrina que transmitiu oralmente. Admira-se de que tenha sido esquecida a ponto de não tirarem dela as conseqüências que as condições exigem:

"Não vos lembrais de que vos Dizia estas coisas quando estava ainda convosco?" (2Tessalonicenses 2,5).

O resumo ligeiro de doutrina feito nestas epístolas é uma repetição sumária da Tradição oral que de forma alguma pode ser substituída como fonte de fé verdadeira e divina.

Também São João, nas suas Epístolas, alude à pregação oral feita às igrejas por ele fundadas, dizendo que lhes escreve para completar sua alegria (1João 1,1-4) e, depois, gravemente adverte:

"O que Ouvistes desde o princípio permaneça em vós. Se permanecer em vós o que Ouvistes desde o princípio, permanecereis também vós no Filho e no Pai" (1João 2,24; cfr. 2João 1,6).

Na 2ª e na 3ª Epístolas, que são muito curtinhas; São João diz expressamente que prefere "falar face a face" a escrever em papel "com tinta e pena" (2João 1,12 e 3João 1,13).

Em todas essas passagens transparece claramente a importância relevante que davam à transmissão oral da revelação, à Tradição Apostólica. Mal aludem a escritos do Novo Testamento. São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, do começo até o fim nos mostra que as igrejas são fundadas pela transmissão oral das verdades reveladas. E em parte alguma vemos os Apóstolos entregarem documentos escritos às igrejas a fim de testemunhar a fé. O que fazem é pregar, nomear testemunhas idôneas a quem transmitem pela imposição das mãos os poderes transmissíveis do apostolado doutrinal na medida em que julgam conveniente, impondo a estas testemunhas o dever de passar adiante, pura e límpida, a Tradição Apostólica.

c) Os Evangelhos não pretendem ser completos

Nem os próprios Evangelhos, que se apresentam como escritos mais independentes de alguma ocasião especial, revelam nenhuma pretensão de expor a doutrina completa da revelação de Cristo. Pelo simples fato de sua multiplicidade e pelas numerosas doutrinas que a eles acrescem depois nas Epístolas Paulinas e Católicas, evidenciam-se como incompletos.

São João afirma explicitamente, no final do seu Evangelho, tratar-se apenas de uma resumida resenha das palavras e feitos de Nosso Senhor, muito distante de ser completo:

- "Em verdade, ainda outros muitos sinais fez Jesus, na presença de seus discípulos, que não estão escritos neste livro" (João 20,30).

- "Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas uma por uma, cuido que nem o próprio mundo poderia conter os livros que deveriam ser escritos" (João 21,25).

Foi um erro da Reforma Protestante esquecer-se do fato de que a     Tradição [oral] precedeu a Escritura.

É pena que caíram em novo erro, atribuindo à comunidade uma função criadora de doutrinas e lendas. Todo o Novo Testamento, no entanto, protesta contra semelhante imputação. Pois são os Apóstolos, enviados de Cristo, ou posteriormente os enviados pelos Apóstolos em nome de Cristo que, assistidos pelo Espírito Santo, foram as testemunhas responsáveis pela doutrina recebida do Divino Mestre. Ainda que a forma pudesse variar, não podiam tolerar a mínima falsificação do depósito de fé. Límpida e pura eles tinham que transmitir a doutrina de Cristo às almas vivas que compunham a Igreja Santa. Como, por exemplo, São João, o discípulo do amor, se torna duro como aço quando se trata de defender a pureza da doutrina:

"Todo o que se apartar e não permanecer na doutrina, não tem a Deus; o que permanecer na doutrina, este tem o Pai e o Filho. Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, porque quem o saúda toma parte em suas obras más" (João 2,9-11).

e) Conclusão

Este depósito da fé, transmitido pela pregação oral garantida pelo Espírito Santo, é a fonte primária da fé cristã instituída expressamente por Jesus Cristo, usada e defendida pelos Apóstolos. É o que chamamos Tradição Oral divino-apostólica. Esta fonte de revelação é Anterior à Escritura do Novo Testamento. Nos primeiros decênios da Igreja primitiva, foi ela a Única existente e Plenamente suficiente para nos transmitir a plenitude da Verdade de Cristo.

Com esta conclusão, respondemos à pergunta formulada no título do nosso tema: a Bíblia NÃO É a única fonte de revelação, NEM a fonte primária.

 André Soares Cardoso

 


COMUNHÃO DOS SANTOS